quando o poder pequeno revela o tamanho do atraso
Não estamos falando de um grande escândalo nacional. Não é Brasília, não é o Congresso, não é um ministério. É pior. É o micro-poder. É o condomínio. É nesse espaço apertado que o Brasil aparece sem maquiagem, sem discurso bonito, sem assessoria de imprensa.
No dia 09 de dezembro de 2025, no Condomínio Borges Landeiro Tropicale, não houve apenas um desentendimento. Houve uma radiografia moral do país.
Um casal de moradores fez algo quase revolucionário: solicitou informações financeiras. Nada além disso. E, por prudência — porque a experiência ensina — resolveu filmar. Não para provocar, não para atacar, mas para se proteger. No Brasil, quem não registra, não existe.
A reação foi imediata e reveladora. A auxiliar do síndico não respondeu com dados, nem com explicações, nem com profissionalismo. Respondeu com agressividade. Ataques verbais. Grosserias. Perda total de compostura. Depois, como manda o roteiro clássico do autoritarismo pequeno, veio a inversão: a agressora passa a ser tratada como vítima. Questionar vira violência. Transparência vira abuso.
E então chega o síndico. A figura que deveria representar equilíbrio, liderança, capacidade de mediação. O adulto da sala. Ele não apazigua. Não organiza. Não orienta. Ele entra no conflito. Puxa o celular do bolso e começa a filmar também. Não para esclarecer, mas para disputar. Não para resolver, mas para marcar território.
O poder, quando é pequeno, não quer solução. Quer vitória.
O episódio se encerra com a frase que resume tudo, uma sentença que carrega séculos de atraso institucional:
“Vocês não têm nada para fazer. Eu tenho.”
Não é sobre agenda. É sobre hierarquia. É a ideia de que quem questiona é inútil, inconveniente, suspeito. E quem ocupa o cargo está automaticamente acima de qualquer explicação. É o velho pensamento colonial aplicado ao hall de um condomínio.
Depois, como se não bastasse, espalha-se a narrativa de que o casal estaria “adoecendo” a funcionária. O questionamento vira patologia. A cidadania vira ameaça à saúde alheia. É a estratégia perfeita: desqualificar o outro para não responder ao essencial.
O essencial, claro, nunca aparece: as informações solicitadas.
O que se viu naquele dia não foi um conflito isolado. Foi um sintoma. Um retrato fiel de uma cultura onde cargos viram extensão do ego, onde autoridade confunde-se com confronto, e onde transparência é tratada como afronta pessoal.
Tudo isso poderia ter sido evitado com algo simples e raro: respeito institucional. Mas respeito exige maturidade democrática. E maturidade democrática, em certos ambientes, ainda assusta mais do que qualquer câmera ligada.
No fim, sobra a constatação amarga:
há lugares em que até para existir como cidadão é preciso filmar.
E há poderes tão frágeis que não suportam uma pergunta.
